O arquiteto-urbanista Renato Arnaldo Tagnin é especialista em recursos hídricos e docente do Centro Universitário Senac – Campus Santo Amaro (CAS). Em entrevista concedida a Susana Sarmiento, editora do portal Setor3 (www.setor3.com.br), ele fala sobre a necessidade de um uso responsável de um dos mais importantes recursos naturais do planeta, a água.
Confira a entrevista:
Portal Setor3 – Com a necessidade de mudança de comportamento para um consumo responsável da água, qual é papel da escola nesse processo?
Renato Arnaldo Tagnin – Hoje, por exemplo, alguns autores dizem que as pessoas só conhecem a água entre a torneira e o ralo. Nosso contato com esse mundo vai ficando cada vez mais tecnológico. Não necessariamente isso é melhor. Porque afasta o contato com os ciclos naturais. O contato com os rios já não ocorre mais. Quem é que pode chegar perto de um deles? Quem é que olha ao rio e está perto dele sem sentir o cheiro desagradável? O rio passou a se tornar outra coisa, como uma forma de escondê-lo. Se eles não estão sendo resolvidos, os problemas estão sendo ocultados. É comum hoje a população não ter mais essa ligação ancestral com a água como os indígenas têm. É frequente pensar: ‘Ali posso morrer, ali me contamino. Aquilo é muito sujo, afasta de mim esse rio.’ Já trabalhei no setor de obras da Prefeitura do Município de São Paulo. Lá era comum a população se manifestar para pedir canalização, ou seja, ocultação do rio. Só que o rio não estava naquela condição, porque é assim, mas por fazermos daquela maneira. Vemos apenas o resultado, apenas morto. Não notamos do que ele morreu, nem do tipo de vida que ele teve e o que poderia ter tido. Só vê que ele morreu e fede. Em uma época, sugerimos ao Instituto Socioambiental orientar a sociedade sobre onde vem a água e uma das questões era: As pessoas aceitam que se façam rodoaneis, indústrias, cidades sobre as águas, por quê? Porque elas não sabem como aquilo vai afetar, não sabem o mal que aquilo vai acabar resultando, porque elas não têm esse pedaço do filme. Resumindo, a escola é uma oportunidade de recuperar alguns filmes. Aquele esgoto você vai beber mais dia, menos dia. Nós podemos trazer um sentido que foi perdido pelas pessoas e, com isso, pautar comportamentos, política para alteração, tanto para empresas, quanto em práticas domésticas e individuais até de políticas públicas.
Portal Setor3 – Além de práticas ecoeficientes, quais seriam outras saídas?
Tagnin - Assim como ver todo o filme, precisamos vê-lo com todos os produtos que consumimos e prejudicam a água direta ou indiretamente. Por exemplo, se você consome isso ou outra coisa, qual é o custo que vai ter em água? Tem várias perguntas que devem ser feitas. A primeira delas é será que preciso disso? Como dizem nossa economia é medida quanto eu gasto. Há uma questão de mudança de paradigma, que não é simples, mas necessária. Como é que o mundo dos negócios vai se mover quando o paradigma não for gastar tudo em um curto prazo? Tem um autor que diz o seguinte: a gente rouba o futuro, vende no presente e chama tudo isso de produto interno bruto (LEMONICK, 2009). Não podemos depender de uma economia que se baseia nesses princípios, porque não terá tudo para todos. Há muitos grupos que tentam responder essa pergunta. Há muitos grupos na Europa, por exemplo, que trabalham com o conceito de decrescimento. E o que significa isso? Eles avaliam a possibilidade de ter uma vida mais inteligente e durável, se a própria economia não pensar só em expansão. Precisamos ir além do mero apagar da luz, diminuir o consumir e sujar menos. Quem disse que se a gente começar a brecar agora nós não vamos bater no poste? O quanto será necessário para parar de gastar água com o processo produtivo? Na verdade, estamos superando vários limites com a velocidade. Não adianta só dizer o que eu vou diminuir tal coisa. A pergunta seguinte vai ser diminuir quanto? E quanto é necessário? O ato de diminuir é um bom começo. Mas está longe de significar que eu conheço os limites e que eu, com essa diminuição, vou conseguir alguma coisa. O que irei fazer com todo restante? Há muito tempo se sabe que há pessoas vivendo sobre o lixo. Só que agora o lixo começa a sair em cima da gente, como foi o caso do Morro do Bumba. Aquele que você não está vendo é o mais perigoso. Aquele que está lá e fede é o melhor lixo.Você olha um rio cheio de PET, é melhor, porque você vê que aquele rio precisa de cuidados. Pior é o rio que está embaixo com sendimento tóxico, cancerígeno, antihigiênico, os fármacos. Agora estão redescobrindo que os cemitérios são poluentes. Ou seja, não é nenhuma novidade. A questão é longe dos olhos, longe do coração, longe da resolução. Precisa acontecer uma tragédia para que o óbvio se restabeleça. As ações preventivas nunca entram na parada. É disso que precisamos.
Portal Setor3 – Como o governo se posiciona?
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